 De que se trata? Nada menos do que a figura que ilustra esta crónica, vista nos seus diversos ângulos para o leitor melhor ajuizar da forma como se gastam os dinheiros públicos. Perdão. Não. Não acredito que tenha sido a Junta de Freguesia de Ester ou o Município de Castro Daire a colocar ali este monóculo. Ali onde está, com visibilidade horizontal reduzida, virado para a povoação de Faifa, só pode ter sido por um natural dessa aldeia a fazê-lo, certamente orgulhoso da sua terra natal e ansioso de mostrá-la aos viajantes que passam na EN que liga Castro Daire a Cinfães.  Miradouro para turistas não é seguramente. Espetado no solo sem qualquer plataforma na base a sustê-lo, sem a dignidade que qualquer equipamento de informação merece, espetado no enfiamento do Ribeiro Sonso que passa aos pés de Faifa, eis como algo digno se torna sonso, com os horizontes cortados de um lado e de outro, com livre visibilidade apenas pela frente, dizia-me uma pessoa que comigo presenciou o facto: «isto deve ser para os caçadores da reserva de Eiriz verem os coelhos e as perdizes lá em baixo. Veja que, para além de, lateralmente, dos horizontes estarem vedados pelas duas vertentes do ribeiro, associado ao sofrível alcance do monóculo, em desvantagem com os binóculos que se vendem nos chineses por dez reis de mel coado, isto só visto. Quem terá sido a luminária que teve esta ideia?»  Falou com toda a razão. Se não foi um natural de Faifa a fazê-lo com o seu próprio dinheiro, se não foi a Direcção da Reserva de Caça, quem foi? Dei-me ao cuidado de espreitar. Não se paga nada. É tudo de borla. Estava um dia sem neblina e, portanto, muito bom dia para explorar as redondezas através do «canudo». Apontei para a frente, para os lados, para cima e para baixo. Dificilmente descortinei o alto de S. Lourenço. O alcance do monóculo ficava-se por ali. Vi bem o alto de S. Macário, mas o «canudo» não tinha capacidade para trazer até mim a Serra da Estrela. É que para além daquilo que o meu amigo sugeriu ocorreu-me a ideia de aquele equipamento servir para matar saudades dos rebanhos que todos os anos chegavam ao Montemuro pelo S. João, vindos da Serra da Estrela. Como já não chegam seria uma maneira de os «ver por um canudo» como se dizia acerca de Braga. Face ao resultado, desisti da ideia. E fiquei sem saber qual a verdadeira finalidade daquele equipamento. Se estivéssemos no Entroncamento, não era para admirar, mas como estamos em Castro Daire, fiquei deveras intrigado. Quem é que pôs ali aquilo? Quem é que autorizou a por ali aquilo? Para que serve aquilo?  Vá ver, caro amigo, suba à serra do Montemuro. Uma vez ali, ao mesmo tempo que, a olho nu, apreciar as lindíssimas coisas da natureza, senhor da sua cidadania, não deixará de se interrogar sobre tão insólito equipamento. Até quando é que ele lá permanecerá? |