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SEI TANTO COMO ELES
Não sei a que propósito, talvez de subconsciente acicatado pelo «programa novas oportunidades» que valoriza o saber adquirido ao longo da vida, à margem da escola e dos professores, dei por mim a pensar numa lição inserta no livro da minha 4ª classe. Tanto quanto a memória preservou, falava de «um aldeão que foi à vila fazer um exame. De cajado na mão, chegou coberto de pó e tornou-se motivo de escárnio dos alunos vilãos. Sentado a um canto da sala, ouvia as respostas dos restantes examinandos, dizendo para os seus botões: «sei tanto como eles». Chegada a sua vez de ser interrogado, respondeu a todas as perguntas, fez um brilharete e, face a isso, aqueles que dele escarneceram caíram em si e acabaram por levá-lo em triunfo pela vila».

Querendo pôr a minha memória à prova, ciente da traição que ela, por vezes, nos prega, corri Seca e Meca, à procura desse livro do Ensino Primário. Fui a bibliotecas públicas e privadas, mas dele não havia sinal. Seguro, porém, do conselho que Aquilino Ribeiro recebeu do seu pai, «o mundo não é mais do que vontade», não desisti. E, eis senão quando, ao falar com o meu amigo Orlando Morais, comerciante na vila de Castro Daire, no ramo de ferragens, ele me disse possuir o livro pretendido. Era, nada memos que o «Livro de Leitura para a 4ª classe, Ensino Primário Elementar, da Editora Educação Nacional, composto e impresso na Tipografia Sequeira, Porto, 1943. Pedi-lho emprestado. Fui lê-lo e, a páginas tantas, lá estava a lição, cuja essência se aninhou, para sempre, nos escaninhos da minha memória, certamente porque, ao tempo, todos os meninos das aldeias iam fazer exame da 4ª c lasse à vila e, consequentemente, sendo eu um aldeão, esperar-me-ia idêntica situação. A memória manteve o essencial da lição, mas, dado que a ela tive novamente acesso, ela aqui fica transcrita na íntegra:

 

                            

 

 «Um exame do general Drouot»

 

Um dia ? conta o próprio general Drouot ? vi afixado um aviso de exames para admissão ao Corpo de Artilharia.

Tendo obtido do meu pai licença para concorrer, parti para Metz levando seis francos para a viagem, que tive de fazer a pé.

Quando cheguei à cidade, dirigi-me à sala de exames. Fui recebido com uma estrondosa gargalhada.

Devo confessar que eu era de pequena estatura, magro, franzino, e me apresentava coberto do pó do caminho, de pau na mão, com grandes e grosseiros sapatos.

Fiquei um tanto embaraçado, mas recuperei ânimo, ao ouvir o examinador dizer-me com afabilidade:

- Certamente vem enganado, meu amigo. Que é que deseja?

- Senhor: eu desejava fazer exame ? respondi.

Uma nova risada ressoou por toda a sala.

- Mas não saberá talvez que este exame é de admissão ao Corpo de Artilharia ? explicou o examinador ? conhece as matérias exigidas pelo programa?

- Eu estudei-as, senhor.

- Bem? vá sentar-se, meu amigo. Chamá-lo-ei, quando for a sua vez.

Fui sentar-me a um canto, seguido pelos olhares escarninhos dos assistentes.

Mas, ao ouvir as perguntas do examinador e as respostas dos candidatos, ia dizendo de mim para mim: «sei tanto como eles». E sentia voltar-me a coragem.

Quando chegou a minha vez a sala encheu-se de curiosos que, por divertimento, queriam assistir ao exame do ridículo aldeãozito.

O examinador começou por me perguntar os princípios da aritmética; depois continuou o interrogatório. Mas em breve se interrompeu e disse-me com ar admirado:

- Onde foi que o senhor estudou matemática?

-Fiz quase todo o estudo sem professor ? respondi.

Quando, ao fim de duas horas, terminou o exame, o examinador levantou-se e veio dar-me um abraço.

- Os meus parabéns ? disse-me ele ? pode considerar-se admitido ao Corpo de Artilharia.

Esperava-me ainda uma honra maior. Os rapazes que de manhã tinham feito caçoada de mim rodearam-me e, apesar dos meus protestos, levaram-me em triunfo pelas ruas de Metz. Foi este o dia mais feliz da minha vida» ass) L.

 

Uma bela lição do reconhecimento do erro, do julgamento apriorístico, por parte dos meninos vilãos. Nos tempos que correm, nas cidades, vilas e aldeias, excluída a filosofia subjacente ao «programa das novas oportunidades», quem é que reconhece e valoriza o estudo e o saber alcançado por esforço próprio? Ao contrário disso, hoje, o que se valoriza e leva aos ombros em triunfo não é o saber e a competência do cidadão ou do aldeão, mas sim a mediocridade, o compadrio e o amiguismo. Importa é a camarilha.

 

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