«Eu não sei definir inteligência, mas sei onde ela não está». (Dito de um filósofo) 2 - Hoje vou ocupar-me da requalificação da «Praça da República», conhecida vulgarmente por «Praça do Coreto».  CORETO - Bancos de granito, encosto de aço inox e de costas para o coreto O que ali se passa é inacreditável. E não é preciso esperar pelo fim da execução do projecto congeminado pelos arquitectos ou engenheiros e engenheiras por ele responsáveis, para nos colocarmos ao lado do filósofo, autor da frase em epígrafe: «não sei definir inteligência, mas sei onde ela não está». De facto, ali, pelo que já se vê, não está, seguramente, inteligência e nem sequer o bom senso e bom gosto. É que requalificar uma Praça onde existe um coreto, e não levar em conta esse elemento arquitectónico, de modo a que os elementos novos ali colocados se articulem, funcional e esteticamente, com ele, é uma autêntica aberração urbanística, se atendermos à função histórica do espaço e dos elementos nele inseridos de novo. Ora veja-se o absurdo: temos um coreto numa praça e os bancos ali colocados põem-se de costas voltadas para o coreto. Dos bancos corridos de granito e encosto de metal, falarão as pessoas idosas que o peso da velhice ali as levará no Verão ou no Inverno. Certo de que no Verão encontrarão nesses bancos, seguramente, o remédio para o reumático que ali apanharem no Inverno. No Verão essas chapas de aço inox assarão sardinhas e no Inverno, já se sabe como é. Falo de idosos, já que, em qualquer parte do mundo, os bancos colocados em jardins ou praças públicas visam, em primeiro lugar, proporcionar a esse grupo etário a comodidade e o convívio. Aqui, em Castro Daire, ou em qualquer outra aldeia, vila ou c idade perdidas no orbe terrestre.  CORETO - Bancos individuais de costas para o coreto E que dizer daqueles bancos individuais que também lá foram postos de costas para o coreto? Imaginem que os bancos corridos estão ocupados e que chegam à Praça, mais quatro ou cinco idosos. Cada qual aproveita sentar-se nos bancos disponíveis. Como estão afastados uns dos outros e os idosos, por força das leis da vida, vão perdendo o sentido auditivo, veja-se o espectáculo. Melhor, ouça-se o espectáculo: Em vez de se favorecer o convívio e a conversa recatada entre amigos, cada um é obrigado a berrar para fazer-se ouvir ao interlocutor. Mais: bancos sem apoio de braços e dada a inclinação, para trás, dos assentos, muito estilística, mas nada ergonómica, idoso que ali se sente, é idoso que se não levanta sem o apoio de qualquer samaritano. Belo serviço. Quem congeminou tal obra e quem deixa que tal obra prossiga, não tem a mínima ideia dos fins a que se destina um largo, dos fins a que se destina uma praça, dos fins a que se destinam os bancos que nela se implantam. E não falo sequer das pessoas de costas voltadas para o coreto nas tardes ou noites que uma qualquer banda filarmónica queira ali tocar algumas das árias do seu repertório. Não falo das árvores «mijonas» que pintam de negro os bancos e o granito polido que ali foi posto. Dá-me a ideia que os nossos engenheiros, engenheiras e arquitectas e arquitectos andam desfasados do princípio elementar preconizado por Le Corbusier, consignado no binómio «espaço/função» na arquitectura, sentido lato. Princípio que eu estendo agora à «rua/função», «valeta/função», «passeio/função», «Coreto/função», «bancos de jardim/função» e por aí fora. Enfim. É o que temos e o que vemos. Por tudo isso faço minhas as palavras do filósofo cujo nome se escapou da minha memória, mas não a sua sábia explicação: «não sei definir inteligência, mas sei onde ela não está».
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