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DR. FERNANDO AMARAL, LAMEGO - HOMENAGEM EM VIDA
Através da imprensa soube do falecimento do Dr. Fernando Amaral, de Lamego, ex-presidente da Assembleia da República, ocorrido no dia 24 de Janeiro último. Ano 2009.

Devo dizer que não privei de perto com tão ilustre cidadão, ainda que ambos tenhamos trocado correspondência de simpatia e admiração mútua, por altura de lançamentos de livros meus e dele. Homem que me habituei a admirar pela sua postura na vida, deixo aos leitores os retalhos do artigo que sobre ele escrevi em 2004 e consta, desde essa data, neste meu meu sit «www.trilhos-serranos.com». Que mais podia eu dizer, hoje, acerca do desaparecimento deste HOMEM que nunca deixou de me dar uma palavra de incentivo à investigação e de reconhecimento pela obra produzida? Só os grandes reconhecem o mérito alheio, só os pequenos, despeitados, o ignoram.

 

               

 

Assim escrevi eu, como digo:

               

«Durante a minha caminhada pela «ágora-mundi» com a lanterna de Diógenes na mão (já lá vão 65 anos) encontrei alguns homens que admirei, que admiro e alguns deles a quem nunca pude, sequer, apertar a mão. Comecei por conhecê-los na minha aldeia, quando, jovem, ainda nada sabia sobre a lanterna de Diógenes, mas já era catedrático no lampião que me mostrava o caminho para o moinho, para as regas e para o palheiro a dar a ceia aos gados. Homens rudes, mãos calejadas, poucas falas, a sua postura, contudo, impunha respeito e distância aos mais novos. Mas não eram bichos monteses desprovidos de solidariedade e de ajuda voluntárias ou se pedidas fossem.

             Com sete ou oitos anos de idade, guardando gado na serra, descalço, um chantão enterrou-se-me num pé. Dores terríveis, corro ao tio Samuel que andava perto. Um desses homens de respeito. Contei-lhe o sucedido. «Anda cá meu menino, senta-te aí, levanta o pé». Obedeci. Ajoelhado à minha frente, com uma mão segura o pé e com a outra, dedos polegar e indicador em tenaz, aperta a pele e com os dentes arranca o estoque que me feria. Nunca mais esqueci. Todos os Natais quando beijava o pé do boneco de barro que simboliza o Menino Jesus, sempre muito limpinho, lembrava-me do homem que para me aliviar da dor me tinha beijado o pé sujo de chão e de sangue. Era um homem bom e solidário.

O Dr. Fernando Amaral é um desses homens bons e solidários. Apertei-lhe a mão uma vez, aquando do lançamento do meu livro ?Mosteiro da Ermida? no Centro Municipal de Cultura de Castro Daire, mas há muito que eu me tornara um seu admirador.

Sabê-lo, quase conterrâneo; sabê-lo eleito para a Assembleia da República por um Partido que não era o meu; vê-lo presidente desse órgão de soberania e assumir esse cargo com imparcialidade, sabedoria e educação; ouvir as suas intervenções parlamentares; saborear os seus discursos empolgantes, empolgados e literários, tudo encantava este aprendiz de feiticeiro já adulto, mas que nas pessoas sabedoras, independentemente dos seus ideários políticos ou religiosos, sempre procurou arrimo. E a tudo isso não era alheio o facto de eu saber que também ele «subira a vida a pulso». 

Li agora o seu livro «Águas Passadas» a começar, claro está, pela dedicatória. Por aquele poema, nome a nome, verso a verso, dístico, terceto, quase soneto «Amor é fogo que arde sem se ver», amor à verdade, amor à família, amor ao país, amor às instituições democráticas, amor ao futuro, lição de independência política, intelectual e moral para netos seus e nossos, grão de milho que, fugindo ao granel da moega, saltita sobre a mó e se recusa a ser moído, se recusa a deixar que façam de si farinha.

Não. Não são «Águas Passadas». Aberta a comporta, são águas agitadas, águas que movem os moinhos da inteligência, da argumentação lúcida e clara, dos afectos, da educação, da urbanidade, tratando com amizade e gentileza até aqueles que, neste meu estilo serrano, mereciam ser tratados à Malhadinhas num varrer de fim de feira. Não são «Águas Passadas». São lições presentes e futuras e que bom foi escrevê-las. A verdade é para ser dita, lida e vivida. Em todo o tempo. Em todo o lugar. Em qualquer função. É que a seriedade e a verdade podem, eventualmente, «andar perdidas entre números», mas qualquer outra versão do evento que relata não fará, seguramente História, face à substancial prova documental em que se apoia e às solidariedades pessoais e institucionais que teve ao tempo.

Mas na senda do seu estilo, na sua forma de estar na vida, quem vir neste seu livro apenas um documento histórico a lançar luz sobre a «Visita à Estónia ? Cancelada», não vê tudo. Quem vir na dedicatória de entrada, dirigida aos seus netos, apenas nove nomes, sem dela extrair a ternura e a verdade que se quer projectada nas gerações futuras, a começar pelos herdeiros, a bem da relação entre os homens, não entenderá o que é repelir energicamente um chantão espetado no carácter de uma pessoa de bem, uma pessoa de palavra que, por solidariedade institucional, e nas funções do 2º magistrado da Nação, teve de dar «o dito por não dito». Quanto lhe doeu! Mas é nesses momentos cruciais da vida que certos homens marcam a diferença. O meu amigo fê-lo. Foi efectivamente o grão que saltou do granel da moega e se recusou a ser triturado. HOMEM que, agindo com sentido de Estado, no decurso da sua vida, sempre procurou servir ideias e não servir Senhores, por mais respeitáveis que fossem.

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