Aquele animal de lata foi para mim o símbolo da minha cavalgada na vida, começada ali, naquela aldeia serrana. Primeiro, representou o cavalo de Afonso Henriques a combater os mouros, não sei, até, se, também, o cavalo de D. Fuas Roupinho atrás de um veado e estacado na escarpa da Nazaré, salvando-lhe a vida ao cavaleiro como líamos na escola primária. Depois, já longe de Cujó, enfronhado nos livros de História Universal, transformou-se no «Bucefalo» de Alexandre Magno, contra Persas e todos os reis e povos que submeteu aos seus domínios. Por último, quedou-se na imagem do «Tornado» de Zorro, sempre do lado do povo contra tiranias e submissões forçadas a impostos e vassalagens.  Mas os tempos de estudo e de profissão de professor de «História» de «Português», durante anos, impuseram que a caneta, seguida do computador, deixassem o martelo, o formão e a goiva de lado, ainda que cedo, tais ferramentas figurassem na minha banca de trabalho, na garagem.  Chegou, pois, o dia de pegar na serra de recortes, no formão, no martelo, na grosa, na lixa e tira-lhes a ferrugem a todas. Com uma tábua de cerejeira na frente, peça solta que pertenceu ao postigo de uma porta antiga, de espreitar, quem chega, que acabou de sair da cofragem de uma obra, eis que, neste mundo cão, de dogmas e tabus, de moralistas e de libertários, de seguidores de catecismos versus pensadores livres, reflectindo sobre o mundo, sobre o homem, sobre a história, sobre as artes e as letras, desde a Antiguidade aos nossos dias, passando pelas Américas, Áfricas, Ásias, tendo em mente a preocupação de Vergílio Ferreira sobre o «milagre da vida e o absurdo da morte» posta no seu livro «Aparição», comecei a «riscar», a «talhar», a «lavrar» e a fazer «aparecer», na superfície dessa tábua, as figuras que se vêem. Propositadamente, optei por deixar a obra inacabada, consciente que estou de que inacabadas são todas as obras humanas, mesmo as de mais rematada perfeição e acabamentos. É só olhar e ver, certo, embora, de haver tantos e tantos que olham e não vêem!
|