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TRANSFORMA-SE O HERDADOR NA COUSA HERDADA - III PARTE
Pois é. Tem sido assim. A cultura e o conceito de cultura que têm vigorado são os que se têm divulgado pela via académica, a via erudita, como se no campo e na vida comum, na biblioteca andante do povo sem letras, não se encontrassem testamentos ou codicilos da herança clássica-bíblica. Almeida Garrett, não se referia somente à cultura livresca quando em 1854 escreveu o seguinte:


«A administração em Portugal, como desde a remota origem d'este povo, se afeiçoou com as leis e hábitos romanos, com os hábitos e as instituições da Idade Media»(1).

Sabendo assim que a administração e povo foram moldados segundo as leis e hábitos romanos, moldados segundo os hábitos e as instituições da Idade Média, não podia deixar de lembrar-te os aspectos que constituem as duas pedras angulares da tua cultura:

«o Paganismo e o Cristianismo, o Renascimento e a "Idade Média que abraçou a Fé Cristã com amor e combateu por Ela sobre todos os terrenos e com todas as suas armas»(2) .

Combateu, de facto. E muito embora os primeiros estudiosos cristãos pusessem Virgílio e Isaías de braço dado, o mesmo não pode dizer-se que tal fizessem todos aqueles que se dedicaram à defesa da causa que abraçaram.
Fica sabendo que ainda na década de quarenta do século XX, segundo as palavras de Frei Bento Domingues, o clero apostava na:

«Cristianização através do sermão e do terço contra o paganismo, retirando da festa religiosa o divertimento, a dança e o riso».(3)

O clero que estava bem na linha anti-pagã de Manuel Luís Martins, como já te disse acima. Com efeito, este autor, sob a «sábia orientação do Exmo. Professor Dr. Gonçalves Cerejeira» na dissertação que fez na Universidade de Coimbra no ano lectivo de 1916-17, disse que...

«Todas as críticas feitas à arte medieval recaem sob a feição da sua escultura, afirmando alguns escritores que ela só representa a dor e o sofrimento.    Reinach, porém, apenas nota uma diferença: - é o facto da escultura medieval estar vestida e a da Renascença, a pagã, estar nua(4).

A este respeito, ora lê e ouve o respigo do poema de  Sophia de Melo Breyner Andresen, inspirado exactamente na estatuária:

TUDO É NU

Tudo é nu e as estátuas ressuscitam
Silêncio na manhã sem tempo
Extinção das vozes que se cruzam
E se perdem na agonia como o vento

Estátuas lisas, puras, cegas
Estátuas de gestos imprevisíveis
No ar sem movimento
.(5)

Cruzemos, ambos, a citação de Manuel Martins escrita num livro de História que pretendeu fazer luz sobre a história, com o poema de Sophia. Ambas se referem à escultura. Confrontados os textos, conhecidas as reais diferenças entre a escultura medieval e a escultura clássica, somos forçados a dar razão a Aristóteles quando um dia afirmou que a «poesia é mais verdadeira que a história». Neste caso a História que fez Manuel Martins. Ele, fazendo suas as palavras de Reinach, ficou-se pelo aspecto exterior das estátuas. A diferença entre umas e outras residia no facto de umas estarem vestidas e as outras nuas. Não viu a diferença no espírito que as anima, no espírito que animava os escultores. Isso foi visto pela poetisa. É que, seja qual for a interpretação que o poema possa sugerir (a obra literária é sempre plurissificativa) quem negará a legitimidade de se ver nas palavras da poetisa a oposição entre o pensamento renascentista e o pensamento medieval? Não diz ela que «tudo é nu e as estátuas ressuscitam» numa alusão clara ao Renascimento, enquanto constata a «extinção das vozes que se cruzam/ E se perdem na agonia como o vento», numa alusão clara ao tempo das cruzes, à «Idade Média que abraçou a Fé Cristã com amor e combateu por Ela sobre todos os terrenos e com todas as suas armas»?

Na Antiguidade Clássica, na Idade Média, na Renascimento, na Paganismo, no Cristianismo, no saber académico e no saber popular de ontem e de hoje, ali onde alimentaste o espírito, mais tudo o que bebeste nas fontes e nos rios do conhecimento e da vida, encontrarás a resposta à pergunta que te fizeste «quem sou eu»?,  olhando as águas espelhadas do rio. Chegado aí saberás quem és. E na tua condição de «herdador» activo e estudioso, ouve-me agora enquanto dormes, saberás bem o que nobremente te distingue da «cousa herdada».

Abílio Pereira de Carvalho - «A Influência da Cultura Clássica na Cultura Portuguesa» (inédito)

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