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AFONSO HENRIQUES NAS GARRAS DA TRAIÇÃO E DA LENDA - II
«Não existirá ciência social, a meu ver, senão na reconciliação, de uma prática simultânea dos nossos diferentes ofícios. Erguê-los um contra o outro é coisa fácil, mas já muito ouvida. Do que precisamos é de outra música».»(BRAUDEL, Fernand, «História e Ciências Sociais» Editorial Presença, 1976.

 

O ERMITÃO

Quem era este ermitão que, sem espada e agarrado à oração, foi o intermediário entre o céu e a terra? Não falta que filie a sua descendência nos reis godos, cujos ascendentes terão vindo para Portugal no ano 570, fixando residência junto do rio Paiva, na Quinta de Rebelo, Bispado de Viseu, hoje freguesia de Reriz.

                                     

                   O Ermitão dá o sinal... está na hora... de matar mouros

 

Como filho varão herdou a quinta, mas mais dotado para a vida religiosa do que para o trabalho do campo, cedeu os direitos de propriedade a um dos irmãos e, dos 20 para os 25 anos, virou a sul e foi refugiar-se nos Campos de Ourique, junto de Castro Verde, onde, durante 60 anos, levou vida solitária e de oração. Mas eis que em 1139 o seu sossego foi quebrado. Um pequeno exército comandado por Afonso Henriques, disposto a enfrentar o forte exército de Esmar acampou em redor da sua ermida, onde, pelos vistos, não era incomodado pelos infiéis. Ao ver tamanha desproporção de forças entre cristãos e mouros, o ermitão, na véspera do confronto, dirigiu-se à tenda de Afonso Henriques a fim de o animar e prometer-lhe a vitória. Das hostes afonsinas fazia parte um irmão do ermitão, Lúcio Catilo de Almeida que, apesar da sua avançada idade, ainda teve força e agilidade para cortar a cabeça de um dos caudilhos de Esmar. Após isso, ninguém mais pôs olho no ermitão. No seu entender a sua missão estava cumprida em terras transtaganas. Retirou-se para a sua terra natal e no monte das Cabeçadas, (atente-se na coincidência dos topónimos) próximo da povoação actual de Reriz, erigiu uma ermida em honra de Nossa Senhora de Rodes. E ali faleceu em 17 de Julho de 1143.

A tradição projectou o milagre de Ourique na História nacional até que Alexandre Herculano, na sua probidade de historiador, o remeteu para o inferno. Mas não é assim na História Local, pois a prová-lo lá estão os painéis de azulejos na Basílica Real da vila, templo construído no século XVIII, reinava em Portugal D. João V, com motivos alusivos à batalha de Ourique. E para reforçar a tradição, espelhada naquele templo em azulejos joaninos, lá estão, também, na Igreja dos Remédios da vila, as grandes telas emolduradas com os mesmos motivos. E só recentemente o «aparecimento de Cristo a Afonso» deixou de figurar nas «armas do concelho» pois, até que novos ícones nelas fossem postos, ele figurava em tudo quanto eram bandeiras e galhardetes, à semelhança do medalhão colocado no tecto da Basílica Real, em tono do qual gira toda aquela arte decorativa.
Mas a iconografia do Milagre de Ourique não se ficou pelos painéis de azulejo, da Basílica Real de Castro Verde, nem pelas pinturas sobre telas de Diogo Magina, na Igreja dos Remédios de Castro Verde. É bem conhecido e divulgado, também, em bibliografia diversa, o quadro de Frei Manuel dos Reis, com data de 1665, existente no Museu Alberto S. Paio.

   
   

           Monumento alusivo à Batalha de Ourique no Monte das Cabeças . 2009

Menos conhecida e divulgada, porém, é a representação desse milagre num estandarte da Irmandade de Rodes, ligada à ermida deste nome, que se diz fundada, como já disse,  pelo Ermitão Leovigildo, no monte das Cabeçadas, arredores de Reriz.
Aires Pinto Marcelino, um cidadão de Farejinhas, concelho de Castro Daire, marceneiro de profissão, cuja vida se estendeu entre os fins do século XIX e os meados do século XX, deixou-nos algumas provas escritas do culto que tinha do passado. E se, visivelmente, não são fiáveis, por falta de formação académica, as especulações que ele fez no campo da História, válidas são as transcrições de documentos e livros que manipulou. E também a descrição de monumentos, paisagens e artefactos sobre os quais se debruçou, vendo-os. 
Feita esta advertência, é em homenagem ao seu trabalho, à sua curiosidade e ao esforço e vontade de registar para a posteridade, o que ele sabia, estar a desaparecer pelo descuido dos homens e voracidade dos tempos.
 Eis, assim, a descrição que ele fez da bandeira da Irmandade de Rodes, que ele classifica de «relíquia por ser obra do nosso imortal e célebre pintor Grão Vasco, mas também por recordar o principal facto da Monarquia Portuguesa».

«De um lado vê-se ali a imagem da Senhora de Rodes e do outro a representação da batalha do Campo de Ourique. Lá estão desenhados os rios Cobres e Terges com os cristãos a um lado e do outro os cinco reis inimigos da Cruz.
A meio dos combatentes vê-se um crucificado aos pés de cujo patíbulo está ajoelhado o valente filho do conde D. Henrique. O escudo das quinas está ao lado do moço príncipe e o ermitão a outro lado em atitude de animá-lo à empresa.
Dos lábios do Cristo pregado na cruz sai uma legenda cheia de promessas e de esperanças para o defensor do cristianismo, que é a seguinte
:

«Ego enim aedificator, et dissipator Imperiorum, et Regnorum sum: Volo enim ent, et, senine tuo Imperium mihi stabilise, ut deferatur nomem in exteras gentes, et ut agnoscant successores Tui Datorem Regni, et insigne tuum exprtio quo ego humanum genus mi, et exo mihi Regnum santificatum, fide purum, et pietate delictum».

Cuja tradução é a seguinte, diz ele:


«Pois eu sou o edificador e dissipador dos impérios e reinos; porquanto eu quero estabelecer o império em ti e tua descendência para que o meu nome seja divulgado pelas nações estrangeiras; e para que os teus sucessores conheçam o fundador do teu reino comporás as tuas armas do preço por que comprei o género humano e daquilo porque fui comprado pelos judeus e será santificado e amado por mim este reino puro na fé e piedoso».

Mas, algures no tempo, por estar danificada, esta bandeira terá sido levada ao Porto por alguém da Irmandade a fim de a restaurar. Histórica, velha, velhinha, o restaurador terá dito que mais valia fazer uma réplica, pois aquela não tinha conserto. E assim se fez. A bandeira original levou sumiço e dela resta agora a sua réplica. Diferente é a minha opinião, mas deixo essa explicação para outro espaço que não este.  

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