O MILAGRE DE OURIQUE EM ARTE Tanto num templo como noutro, os quadros ilustram os vários passos da lenda, a saber: a tenda de Afonso Henriques rodeada de soldados; a visita do ermitão à tenda de Afonso; o aparecimento de Cristo e Afonso de joelhos e mãos postas; o ermitão a tocar o sino e a anunciar a hora da batalha; a refrega e o clamor do embate dos exércitos; as cabeças dos cinco mouros espalhadas pelo chão, etc. etc.  A VISÃO DE AFONSO ..... As telas da igreja da Nª Sª dos Remédios, situadas pelo estilo no século XVIII, não tinham identificação do autor e anónimas se mantiveram até que eu resolvi meter-me nos arquivos locais e «trabalhar utilmente» em prol da história, como dizia Michelet. E foi assim que no arquivo da Basílica Real, se arquivo se podia chamar, então, ao montão de manuscritos guardados a granel por detrás do altar-mor, encontrei um contrato de arrematação das pinturas onde não só estava expresso o seu custo, mas também a identificação do, até então, anónimo pintor: Diogo Magina. É desse contrato que transcrevo a parte que alude a Afonso Henriques e à batalha de Ourique: «Os quadros do corpo da igreja hão-de ser dez, cinco de cada lado, que vem a ser, oito das bandas e dois sobre o pórtico, cada um ao menos de oito palmos em quadro, além das molduras, as quais hão-de ser de um palmo de largo ou daquela largura que pedir a obra com um filete e um redondo e uma meia cana pintada de carampito a ouro da ....(?) com oito ramos de ouro cada um, que vem a ser as cantoneiras e nos meios e a pintura deles constará da batalha e aparição de Cristo Senhor Nosso a El-Rei D. Afonso, reguladas pela história da mesma batalha mencionada em outro papel dos apontamentos feitos por Luís António Pereira e apresentado pelo letrado Doutor Ouvidor e Provedor desta Comarca».«Livro das Arrematações da Igreja da Nossa Senhora dos Remédios de 1747-1837»  PREPARAÇÃO DA BATALHA .... Tendo divulgado essa peça administrativa no Boletim «Castra Castrorum» edição policopiada que se publicava em Castro Verde, versão gráfica e técnica hoje consideradas pré-históricas, um colega meu de Filosofia, João José Alves da Costa, que trilhava os caminhos da História e colaborava no mesmo Boletim, não obstante eu ter-lhe fornecido a transcrição de um documento relativo à «Confraria de S. Miguel» comprovativo de um pagamento feito a Diogo Magina, relativo às pinturas dos quadros da Igreja dos Remédios, ignorou isso e o contrato no seu livro «O Termo de Castro Verde» (edição da Câmara Municipal de Castro Verde, 1996), atribuindo a mesma obra a pintor diferente, com base no que lera numa Monografia de Loulé. Estranhei o facto e apressei-me a reeditar a publicação do mesmo contrato, agora, em «O Campaniço» (Janeiro/Fevereiro 98), edição impressa da Câmara Municipal de Castro Verde. E ali perguntei o que teria levado o autor a desacreditar um documento autêntico, um contracto manuscrito, assinado e datado, para creditar um texto inserto numa Monografia. E face à minha dúvida, terminei dizendo: «há razões que a razão não entende», Alves da Costa, no Boletim de Janeiro/Fevereiro de 1999, sem dizer a razão por que ignorou o contrato publicado em «Castra Costrorum», veio a contestar a minha leitura do documento e, de forma prolixa, negar que fosse Diogo Magina o autor das telas em questão. A polémica prosseguiu e terminou em «O Campaniço» (Março/Abril de 1999), cada um a defender as suas convicções e fundamentos. Eu, pugnava pela autenticidade do «Contrato de Arrematação das obras de pintura da Igreja dos Remédios» e pagamentos feitos a Diogo Magina no cumprimento do contrato assinado. Ele apegando-se a um vago parágrafo incluso numa Monografia de Loulé que aludia a outro pintor. Encerrada a polémica, cada um ficou na sua, até que, em 2008, M. Lourdes Cidraes, no seu livro «A Tradição Lendária de Afonso Henriques», cotejando o dito e o contra dito por cada um de nós, remata a favor das provas que sustentam a minha argumentação, da seguinte forma: «Apesar da pertinência dos argumentos [de Alves da Costa] não creio que tenham peso suficiente para invalidar a autoria referida em documentos contratuais e notas de despesa, onde surge sempre, como arrematante, Diogo Magina» (CIDRAES, M.Lourdes, «A tradição Lendária de Afonso Henriques e as Memórias do Rei fundador em Castro Verde», ed. Câmara Municipal de Castro Verde, 2008.  .... E AS CABEÇAS ROLAM PELO CHÃO Trouxe o caso à colação por saber que a evolução do conhecimento histórico, raramente se dá sem polémicas. Umas resultam das interpretações que os investigadores dão ao conteúdo dos documentos que descobrem e manipulam e outras pela escola historiográfica que enforma os polemistas, senão mesmo pela ideologia que cada um deles professa. Em verdade se diga que, apesar da polémica travada entre nós, da qual saíram vencidos os argumentos de Alves da Costa, tendo ele sido encarregado, pela Câmara Municipal, de preparar a edição fac-similada do Foral de Castro Verde, em 2006, dado por D. Manuel em 1510, não omitiu o trabalho pioneiro que eu já tinha feito, antes dele, sobre esse foral. Assim: «Este foral foi pela primeira vez transcrito, em 1978, pelo professor de História de Portugal da Escola Preparatória local, Abílio Pereira de Carvalho». |