Geografia

Rio Paiva
15-06-2004 22:48:48
Aqui se deixam as belezas do rio menos poluído da Europa. Aqui se fala do aproveitamento das suas águas através dos tempos, no passado e no presente. É um rio que no Inverno desafia os amantes do desporto radical a enfrentarem os seus rápidos e no Verão apela ao banho sossegado nas praias de Folgosa e Ponte de Cabaços, à sombra de amieiros, salgueiros e carvalhos.

Deslizando da serra da Nave, bem perto de Carapito onde tem seu nascimento até ao rio Douro, onde desagua, o rio Paiva, qual réptil fluído a rastejar quilómetros de distância por entre serras e montes, toma forma e cor diferente ao longo de todo o seu percurso.

Acompanhado de amieiros e salgueiros, algumas cerejeiras também, nuns sítios corre esgalgado e coleante como que a fugir à pressão das montanhas que o oprimem e, noutros, alarga-se em viola de dormente serenata. Ele tem troços de águas vivas, movimentadas e cristalinas, mas tem também os seus pegos de  águas serenas e mansas. Na relativização das coisas do mundo e do modo como cada pessoa encara a realidade envolvente, o rio Paiva não deixa de ser belo no seu todo. Ele inspira poetas e escritores ao mesmo tempo que irriga as terras de pão e lameiros de feno. Há  aqueles que gostam mais de o ver saltar de pedra em pedra, escutar a poesia da espuma branca-esverdeada e aqueles que mais apreciam os seus pegos sossegados, sempre prontos a proporcionarem banhos em tempo de calmaria. 

Correndo aos pés de Castro Daire é força motriz para moinhos e azenhas, ninho de trutas para peitas a administrativos, políticos e médicos. Atravessado de longe em longe por poldras de granito, esse recurso primitivo a que os homens deitaram mão para passarem de margem para margem sem ser a vau, essa passagem gratuita disputava já, em alguns lugares, nos fins do século XIX, a concorrência das pontes, ditas de  portagem (Pinheiro e Cabaços) construídas por pessoas endinheiradas, cansadas da  falta de resposta dos poderes públicos na  área das comunicações.

Magro ou anafado, conforme as estações do ano, mas sempre vivo e rebelde, ao longo de toda a sua caminhada até desembocar no rio Douro, ali ao pé de Covelo de Paiva, ele espreita as vertentes que o ladeiam e vê quintas trabalhadas de sol a sol, pedreiros levantando muros de sucalco e testemunha no tribunal do tempo o aparecimento de sesmarias, terras abandonadas por má  gestão dos seus proprietários ou administradores, ou por falta de mão de obra barata, cansada de exploração, cansada da malga de caldo recebida em troca da féria diária.

Fazendo girar moinhos e azenhas no passado, gorado que foi o projecto de receber em 1919, no lugar do Porto Canal, uma represa com vista à produção de energia eléctrica, projecto inviabilizado por aqueles que se opunham à República, tal como se lê em ?O Castrense? nº 198 de 30.03.1919, foi preciso chegar o ano de 1990 para que a GENERG (Gestão e Projecto de Energia, S.A.) fosse autorizada a fazer a represa  bem perto da Ponte Pedrinha e a mini-hídrica situada no Vale do Soeiro, Chãos do Paiva, passasse a debitar 11,83 KWh  (média annual), a partir de 1993.

Rio extremamente vivo no Inverno ele está pronto a receber turistas amantes de desportos radicais, isto é, todos aqueles que se dispuserem a saboreá-lo ao longo de todo o seu curso. Aqueles que não tiverem coragem de deslizar nos seus rápidos pedregosos sempre podem escolher um sítio donde possam ver alguns dos seus troços. O Penedo da Saudade, junto à aldeia do Gafanhão, é um excelente miradouro.  

_____________________

* Rocha de Castro  - ?Passeio Pela Serra? in  ?Notícias de Castro Daire? nº 86 de 24.08.1994

   e  in  ?Julgamento?, 2000, Palimage Editores

         Nota: Rocha de Castro é pseudónimo de Abílio Pereira de Carvalho

voltarimprimirtopo