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Sita no Jarim de C. Daire
Indústria Madeireira
A indústria mais representativa no concelho de Castro Daire foi, e é, a que está ligada à serração de madeiras. Mas não se pense que ela ultrapassou a fase artesanal do «serrão», da «burra» da «serra braçal» e do «traçador» há muito tempo.

A grande transformação tecnológica deu-se com a chegada da máquina a vapor, já em meados deste século. A aplicação serôdia desta tecnologia a este ramo de indústria ainda não se apagou  na memória de grande parte das pessoas que tem hoje pouco mais de 50 anos de idade. Introduzida fora de horas, chegando tarde e tarde saindo, é até estranho para muitos residentes no concelho que a sua inventariação e estudo seja objecto da arqueologia industrial.

 

Não estando as fábricas imunes à passagem do tempo e, consequentemente, sujeitas à transformação trazida pela modernidade e pela iniciativa e investimento dos empresários, em algumas delas os motores de combustão acabaram por substituir as máquinas a vapor e os motores eléctricos deslocaram, de vez, a tecnologia que os precedeu, utilizada, algumas vezes, de forma conjugada e com funções múltiplas.

 

 

CASAIS DE DONA INÊS

 

Com o número matricial 1112 na Repartição de Finanças de Castro Daire, a «Serração Moderna dos Casais, Lda», freguesia de Mões, é dada por concluída no ano de 1956.

Hoje propriedade do senhor António Luís de Almeida e filhos, a máquina a vapor de marca «Lanz» comprada em Portalegre, foi o equipamento tecnológico «moderno» que  adjectivou o nome da firma.

 

No   dia   24   de    Outubro   de   1959   a   Direcção   Geral   dos Combustíveis autorizou a instalação e funcionamento do motor a vapor nº 1153 de marca «Clayton» com a potência de 35 CV. Este motor, segundo o dito certificado, recebia o vapor do gerador de vapor da mesma marca, cujas características técnicas constam no quadro que apresentaremos mais abaixo.

 

Este equipamento a vapor, originário da Inglaterra,  não se estreou na fábrica dos Casais de D. Inês, ali, onde viria a ser reformado por força da tecnologia mais avançada, posteriormente introduzida. Em 19 de Julho de 1944 laborava em várias propriedades agrícolas de José Nobre Lança, na freguesia de Panoias, concelho de Ourique, distrito de Beja. Passeando-se por várias propriedades, como diz o certificado que legaliza a sua instalação, vê-se logo que se trata de uma locomóvel, uma daquelas máquinas a vapor que os lavradores alentejanos aplicavam às debulhadoras do trigo.

As razões por que o lavrador alentejano se desfez deste equipamento  são fáceis de adivinhar: a chegada do tractor - máquina polivalente, utilizada na lavra e mais tarefas ligadas à preparação da terra para a semeadura e facilmente aplicada à debulhadora em tempo próprio - pôs de lado a máquina a vapor. E, segundo os nossos informantes, o empresário beirão, não apenas este, mas também alguns outros, apressaram-se a descobrir o Alentejo (Alto e Baixo) com o intuito de adquirirem ali, por «tuta e meia», a tecnologia que lhes fazia falta para  desenvolverem ou implantarem as suas indústrias. Nunca o Alentejo foi tão falado nas Beiras entre empresários. Só quando os "ratinhos" se deslocavam para as ceifas transtaganas. Agora eram aqueles mastodontes de ferro que faziam o circuito inverso. Com quatro rodas por baixo da barriga e duas às carrachoilas, polidas, prontas a receberem as correias de lona e a transmitir a sua força, fosse ao que fosse. A debulha dos trigais do «celeiro de Portugal» ficara para trás. Agora outras tarefas as esperavam.

Mas elas não vinham só do Alentejo. O litoral, onde o progresso e o   desenvolvimento  mais cedo encontraram terreno propício para se fixarem, transferiu também a tecnologia fora de moda e em desuso para o interior.

Outra máquina chegou depois, adquirida em segunda mão, ao senhor Moisés Tavares da Silva, dono de uma  serração no local da Relva, freguesia de Vila Chã, concelho de Vale de Cambra.

 

A chegada da «Wolf» sugere, desde logo, que a velha «Clayton» chegara ao fim dos seus dias. E no mesmo sentido aponta a correspondência emanada da D.G.C., datada de 2.10.69, onde se pede para aqueles Serviços serem informados do nome e morada do seu hipotético comprador e no caso de ter sido vendida para a sucata, devia a firma requerer o cancelamento da instalação, nos termos da lei.

Tinha razão o padrinho da firma dos Casais quando a baptizou de  «Serração Moderna». É que nas suas instalações laborava ainda, e também, outra máquina de vapor de marca «Pierre Dumurá». Mas esta tinha uma vida menos esforçada. Não accionava serras. Produzia simplesmente vapor destinado ao aquecimento da «estufa» para secagem de madeiras.

 

Iniciando-se na indústria no já afastado século XVIII, base da chamada Revolução Industrial, a máquina a vapor marcava a sua presença em Castro Daire, nos meados do século XX. Com que orgulho os empresários   não exibiriam a tecnologia que, sendo rejeitada noutros sítios por ser considerada obsoleta, por os empresários já terem à mão outros recursos, aparecia aos olhos dos castrenses como tecnonologia de ponta, habituados que estavam a ver na água e nos animais a única força motriz que fazia girar os seus engenhos industriais.

 

 Serração «Moderna» se chamava a firma dos Casais, como quase todas as outras suas contemporâneas. O  nome é de si significativo. O progresso demora a subir à serra, custa-lhe a penetrar no interior e o que se exibe como prova de modernidade é, paradoxalmente, a prova mais evidente do atraso das nossas indústrias, ao tempo.

 

Passados poucos anos após a "Revolução dos Cravos", a Serração Moderna dos Casais, deixou de laborar à força do símbolo da "Revolução Industrial". Tornou-se efectivamente "moderna", se não levarmos em conta que lá pelas Europas já há serrações onde computadores e robôs dão ares da sua graça. As serras e mais instrumentos de corte da serração de Casais continuam a girar, mas não já accionadas pelas máquinas a vapor. Duas delas foram vendidas para a sucata, mas outra - a "R.  Wolf" -  recusou-se a largar o compartimento onde foi instalada, como que disposta a não seguir o destino das companheiras e a lembrar que, sendo um produto do engenho humano concebido para engenho de produção, o homem só se respeita a si próprio, respeitando a obra que produziu.

 

Não podendo permanecer no sítio onde foi instalada, dado o espaço que ocupava ser necessário para outras funções, descoberta que foi no decurso deste meu trabalho, convenci o proprietário a cedê-la ao Município com vista à sua recuperação e, subsequente instalação no jardim público da vila, em homenagem à história da técnica,  da indústria e do trabalho.

 

Ele consentiu. O executivo municipal não foi insensível à proposta que lhe fizemos de seguida e, em resultado disso, os vídeos e as fotografias de que a máquina tem sido alvo, desde então, por parte de nacionais e estrangeiros, crianças e adultos que sobre ela se interrogam, atestam o acerto, não só da iniciativa.

 

E o facto vai fazendo eco na imprensa nacional e regional. Vasco Callixto, de passagem por Castro Daire,  no «Correio da Manhã» de 8.11.94, citado na «Gazeta de Beira» de 07.12.94, refere-se ao facto da seguinte forma: «a colocação no centro do jardim de uma máquina monumental, como símbolo da indústria da região, constitui uma   feliz   iniciativa".   E  o  «Jornal  de  Notícias»  que   tem dedicado algumas crónicas ao concelho de Castro Daire,  foi nesta máquina a vapor que encontrou o motivo para ilustrar um artigo sobre o Plano Director Municipal. E a recente colecção de postais ilustrados editada pela Papelaria "ETC", a par de outros momumentos concelhios, inclui a máquina «R. Wolf».

 

Cf. Meu livro ?CASTRO DAIRE ? Indústria Técnica e Cultura?, ed. 1995

 

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