Através dos títulos que se seguem, todos aqueles que se não queiram ficar pelo saber histórico já foi difundido pela "aldeia global", hão-de gostar de entrar nos "trilhos serranos" que, em torno da Serra do Montemuro (e não só) foram rasgados por gerações de gentes, trabalhadoras, pagadoras de impostos e de promessas, caciques e pessoas de bem que jamais sonharam tornarem-se protagonistas da História.
Esta loja, sita no edifício do Mercado Municipal, mantém o aspecto tradicional, seja nos artigos que vende, seja na sua disposição em prateleiras e escaparates.
Desde os tempos pré-históricos, desde que os nossos ancestrais neolíticos domesticaram os primeiros animais selvagens, jamais deixamos de fazer parte integrante da trindade «Terra-Homens.Animais».
Cujó. Meados do século XX. Década de sessenta. Ano de 1966. Assim mesmo, a preto e branco, eis a uma foto de Cujó, uma só foto proveniente de duas, graças ao milagre da tecnologia dos tempos que correm. Eu vos conto.
A história ensinou-nos que todas as grandes civilizações da Antiguidade se desenrolaram nas margens dos grandes rios. As mais divulgadas são a civilização egípcia, que teve o Nilo por perto e a Mesopotâmia, abraçada pelo Tigre e pelo Eufrates.
Eis uma página de História escrita no anúncio das «FESTAS DE NOSSA SENHORA DO PRESÉPIO E SANTA EUFÉMIA» realizadas na aldeia do Mosteiro, concelho de Castro Daire.
O historiador quando escalpeliza os testamentos não o faz conduzido pela mão da necrodulia, mas antes ciente de que é através deles que mais seguramente penetra nas profundezas da mente humana, no pensamento escatológico de uma época, do pensar, sentir e agir dos testadores que, às portas da morte, procuram dar sossego às suas almas e comprar o céu espiritual do outro mundo a troco dos bens materiais de que se gozaram neste e não podem levar consigo. Tudo através dos testamenteiros, advogados e tabeliães.
Quem, neste princípio do século XXI, se interroga sobre o passado histórico das aldeias do concelho de Castro Daire, ainda encontra na memória oral dos anciãos as informações de que S. Joaninho caprichava na sua produção de «queijos» de leite de cabra e de vaca e de que as aldeias do Vilar e da Carvalhosa se projectaram, no concelho e arredores, pela qualidade e quantidade da produção de manteiga de vaca, com sal ou sem sal.
O meu ex-aluno Toni, natural de Cetos, actualmente estabelecido na vila de Castro Daire, no ramo de Livraria/Papelaria – AGUARELA - desafiou-me a colocar aqui umas palavrinhas sobre os primórdios da sua terra natal, já que, ultimamente, me tenho passeado pela serra do Montemuro. Porque raramente não deixo sem resposta as pessoas que se mostram interessadas na História e empenhadas em alargar os seus conhecimentos, devem-se a essa solicitação as palavras que se seguem:
Neste meu afã de deixar para a posteridade as pegadas que, ao longo do tempo, os habitantes das nossas aldeias serranas vão deixando na HISTÓRIA, pegadas que o tempo e as novas formas de vida já apagaram de vez ou vão apagando dia a dia, venho hoje referir-me ao «Forno da Telha», em Cetos.
Voando na máquina do tempo, conduzida por Frei Bernardo de Brito, «cronista geral e religioso da Ordem de S. Bernardo, Professo no Real Mosteiro de Alcobaça» aterro com ele no topo da Serra do Montemuro, no ano de 1597.
Piloto encartado, habituado a navegar sobre o passado e a imprimir para o futuro as marcas do presente vivido, eis o que ele nos diz:
Antes de Frei Bernardo de Brito, em 1597, se ter debruçado sobre a serra do Montemuro, já Rui Fernandes, em 1531, «tratador das lonas e bordates» na cidade de Lamego, tinha dado um lampejo dessa serra no seu «Tratado» sobre o os tecidos que, nessa época, se faziam na cidade de Lamego, ao ponto dela ser um pólo industrial cujos tecidos «abastecerem o país inteiro e ainda iam para Castela». Eis o que ele nos diz, então:
Nos meados do século XVIII, Alva, para além da Igreja Matriz, tinha dento da povoação três capelas. Uma de Santa Catarina que era de António Araújo e Sousa, de Vila Meã; outra da Senhora do Carmo, que era de Manuel Lourenço de Sousa, de Alva, e a terceira que pertencia ao Padre Brás Lourenço, também de Alva. Nenhuma delas tinha «romagens», tudo apontando, pois, que a «festividade» da Nª Senhora da Penha, que todos os anos se faz na aldeia com grande brilhantismo, seja posterior a essa data.
Alva, freguesia de Castro Daire, como todas as aldeias espalhadas por esse país fora, por mais pequenas que sejam, têm a sua história. Falta é investigá-la, escrevê-la e divulgá-la.
Uma das artes que está prestes a dar os últimos suspiros em Castro Daire é a dos sapateiros. São os seus últimos representantes, os senhores Eugénio Pires de Oliveira e de Abel Ferreira.
Os sapateiros, esses profissionais que, nas suas oficinas, sentados numa banqueta, protegidos com avental de cabedal, uma mesa à sua frente toda compartimentada para não se misturarem as cardas com as arestas, estão prestes a dar o pio.
Numa conversa informal com o senhor António Carlos Ferreira Cardoso, de 27 anos de idade, natural da freguesia de Lamelas, sapateiro de profissão, lamentava-se de, navegar na Internet, inclusive no meu site, e não encontrar nada sobre a igreja da sua freguesia.
Neste meu cuidado de historiar o não historiado em Castro Daire; neste meu cuidado de fazer o levantamento arqueológico dos equipamentos sem vida que já vida tiveram; neste meu cuidado de preservar o passado, através do registo escrito e fotográfico, sem despesas para o orçamento municipal (será que todos fazem isso?), desta vez trato de um forno inactivo, mas de que ainda existem os resquícios identificadores do seu labor.
Na vila de Castro Daire, perto da igreja Matriz, na Travessa do Forno, fica exactamente o mais conhecido forno da vila: «o forno da Dona Maria do Céu».
Construído em 1933, data desse ano alvará passado em nome de João Frias Oliva, com a designação de «forno de padaria, só cozedura».
Feito o registo sobre dois fornos históricos que no velho burgo de Castro Daire fecharam portas e não cabendo ao historiador fixar somente os olhos no passado, cabe deixar aqui, ao menos, uma das alternativas modernas de portas abertas. Refiro-me ao moderníssimo e funcional «Forno da Serra», sito à beirinha da Fonte dos Peixes.
O historiador quando escalpeliza os testamentos não o faz condizido pela mão da necrodulia, mas antes ciente de que é através deles que mais seguramente penetra nas profundezas da mente humana, no pensamento escatológico de uma época, do pensar, sentir e agir dos testadores que, às portas da morte, procuram dar sossego às suas almas e comprar o céu espiritual do outro mundo a troco dos bens materiais de que se gozaram neste e não podem levar consigo. Tudo através dos testamenteiros, advogados e tabeliães.
Arreigado ao princípio de que «todo o povo sem memória é um povo sem história» de há uns anos a esta parte que dou por mim a recolher e a preservar livros e jornais antigos, esfarrapados, ratados, manuscritos legíveis e ilegíveis, fotos debotadas, artefactos ferrugentos e manetas que no passado eram escorreitos e sãos, cheios de vida e que vida da comunidade concelhia não dispensava.
Atavismo meu que parece não tingir a sensibilidade dos responsáveis pelo nosso Museu Municipal, ao ponto do Prof. Hermano Saraiva dizer o que disse no seu programa televisivo sobre Castro Daire: «pobre, muito pobre»!
Refiro-me às lojas comerciais sitas na vila de Castro Daire que vêm de tempos idos e cujos comerciantes, autênticos heróis que, neste tempo de globalização, resistem à lógica comercial das «grandes superfícies», continuam a manter com os seus clientes uma relação de afecto e de atendimento personalizado.
Mas seria injusto esquecer mais três lojas do género que, vindo do antigamente, mantêm porta aberta, funcionando segundo os moldes tradicionais, ainda que uma delas tenha aderido aos produtos, «miudezas» e quinquilharias dos tempos que correm.
Ignorando eu, criança, a imponência dos castelos medievais, espalhados por esse Portugal além, ignorando, também, que o espaço intramuros se designava castelania, tudo aquilo, toda aquela grandeza a sobressair na pequenês da aldeia, em Cujó não havia símile, impressionava a minha alma infantil, quando ali passava, todos os dias, a caminho da escola primária.
Decorria o ano de 1888, quase no pôr-do-sol do século XIX, quando uns tantos habitantes de Cujó apresentaram à Câmara Municipal de Castro Daire uma «suplicação» em defesa do monte baldio que, sendo comum às povoações de Cujó e Monteiras, os habitantes desta tentavam dividi-lo entre si em prejuízo dos seus vizinhos. E comentavam na suplicação:
Como escrevi no meu livro «Cujó – Uma Terra de Riba-Paiva», editado pela Junta de Freguesia em 1993, decorria o ano de 1927 quando uma comissão constituída por Salvador de Carvalho, Samuel Paiva e Pedro Duarte, diligenciou e conseguiu criar uma feira em Cujó a realizar todos os meses no «Largo das Carvalhas», vizinho da «Eira da Fraga», no fundo do lugar.
As estradas romanas de que restam alguns troços por este Portugal além, inclusive em Castro Daire, caracterizadas pelas lajes de pedra que as pavimentavam a toda a largura e ao longo de quilómetros, enchem páginas de história e não há professor que, ao tratar do tema «romanização», a elas se não refira.
A erecção da ermida de Santo António, em Cujó, está associada aos remotos e não identificados proprietários do pisão que existia no rio Mau, junto de dois moinhos hidráulicos, um pertencente à família dos Pereirinhas e outro à dos Teresos. Era um pisão que ainda laborava nos anos 50 do século XX. Sobre este pisão ver entada neste mesmo site.
A ermida de Santa Bárbara, templo de planta quadrangular, sita no outeiro sobranceiro à aldeia, do lado do poente, não está referida nas Memórias Paroquiais de 1758, relativas à freguesia de S. Joaninho. Ela, juntamente com a de Santo António e a do Sr. da Livração, que lhe ficam defronte, constituem as três os vértices de um triângulo imaginário sobre a aldeia, uma espécie de escudo invisível e protector suspendo nas mãos das divindades em que o povo crê.
A ermida do Sr. da Livração, de Cujó, sita no alto da serra da Lestra, a caminho da Moirisca, não se encontra referida nas Memórias paroquiais de 1758 e o ex-voto datado mais antigo que nela se encontra regista o ano 1846. No tecto da ermida foi pintada a data de 1886.
Quando em 1987, na presença de José da Costa (Ferreiro), procedi à inventariação dos ex-votos pendurados nas paredes interiores da ermida do Senhor da Livração, de Cujó, e guardados numa caixa existente na casa de arrumações ao lado da Ermida, constatei que existiam 24 ao todo, incluindo um pintado sobre ardósia, cujo agraciado nele identificado era José Salvador, do Touro.
No ano de 1940 não faltou trabalho aos pedreiros e canteiros de Portugal inteiro. Depois de 60 anos de submissão à Espanha, o País comemorava os 300 anos da Restauração da Independência.
Na década de 50 do século XX, bem perto do sítio onde duas linhas de água confluíam para lhe dar origem ao «Rio Mau», existiam, como que irmanados, dois moinhos hidráulicos e um pisão. Um dos moinhos era pertença da família «Pereirinha» e o outro da família dos «Terezos» e dos «Carvalhos».
Vivendo da agricultura, a população de Cujó não podia dispensar os moinhos. E as águas do rio Calvo, que corre mesmo aos pés da povoação, fizeram girar as mós de oito moinhos estendidos pelo seu curso abaixo. De montante a jusante, são assim designados: moinho da Ponte, de Botacos, do Porto, das Lameiras, do Fundeiro, dos Tanqueiros, das Ferreiras e de Vale de Cavalos.
Em 1758, como se vê no Inquérito mandado fazer pelo Marquês de Pombal, para averiguar, entre outras coisas, dos efeitos do terramoto ocorrido em Portugal, com incidência em Lisboa, no ano de 1755, Cujó tinha uma ermida de invocação à Nossa Senhora da Conceição. E terá sido esse pequeno templo que chegou ao ano de 1914, data em que se começou a construir a torre que hoje ladeia o templo existente.
Indispensáveis na linha da produção do pão, as eiras, nas povoações rurais, no presente caso em Cujó, espalhadas por toda a povoação, se durante o ano podiam ser utilizadas para amontoar medas de lenha, logo que chegava o mês de Junho, segadas feitas, rolheiros carretados para ali, elas estavam limpas e preparadas para receberem carros e carros de vacas carregados de centeio. Nelas se levantavam, então, medas e medas, com a mestria dos lavradores acumulada de séculos.
A relação estreita entre a agricultura, a indústria e o comércio, bem como a tríade terra/homens/animais, nasceram há cerca de 7.000 anos, no Neolítico, com sedentarização dos os primeiros povos, até aí nómadas.
O primeiro documento autêntico onde o topónimo CUJÓ aparece referido é o foral do «Couto da Ermida» dado por D. Manuel I em 1514. Nele se diz, com efeito, que o Mosteiro, alargando os seus domínios à freguesia de S. Joaninho, possuía «hay outro casal (…) de prazo que se chama cojoo».
No meu livro «HISTÓRIA DE UMA CONFRARIA – 1677-1855», editado pela Câmara Municipal de Castro Verde, em 1989, não explano somente a história da «Fonte Santa de S. Miguel» e os efeitos das suas águas sobre as maleitas dos doentes que delas se serviam para as curas das suas maleitas, mas também historio a construção do novo templo sito junto ao «Monte dos Gregórios», aliás, construído em simultâneo com o edifício que ainda hoje cobre a dita «Fonte Santa».
Do meu livro «HISTÓRIA DE UMA CONFRARIA – 1677-1855», editado pela Câmara Municipal de Castro Verde, em 1989, destaco para aqui o que nele escrevi sobre a «Fonte Santa de S. Miguel», baseado nos manuscritos que consultei, enquanto professor que fui na Escola Preparatória daquela vila, entre 1976 e 1982/83.
Em 1258 Mouramorta pertencia ao concelho do Moção e era terra «regalenga», isto é, era propriedade do Rei. Estávamos no tempo de D. Afonso III, o monarca que, em 1249, expulsou definitivamente os Mouros do Algarve. Em 1527 a povoação tinha 23 moradores e alguns deles serão, por certo, os ascendentes das pessoas que, neste princípio do século XXI, ainda habitam a aldeia. Eles são os resistentes. Eles são uns heróis.
Até meados do século XX, Mouramorta, como as demais espalhadas nas encostas do Montemuro revestia um aspecto medieval. Casas cobertas de colmo, sem chaminé, interiores negros de fumo, sem saneamento básico, nem água canalizada, nem energia eléctrica. A iluminação, tirando a luz do Sol, era da candeia de petróleo, patromax ou gasómetro a carbureto. Também havia as lanternas a pilhas, aquelas de «olho de boi» que, em noites de breu, mandavam um feixe de luz a uma distância dos diabos.
Se recuarmos às décadas de 20, 30, 40 e 50 do século passado, décadas de má memória, se habitarmos no norte do concelho de Castro Daire e precisarmos de artigos de mercearia ou peças para vestuário e demais coisas ligadas à sobrevivência, por certo nos dirigimos a Mouramorta, a pé, a cavalo ou em cima de um carro de bois. Aí vamos encontrar a resposta às nossas necessidades, primeiro, no estabelecimento comercial de José Morgado e, depois, no de Vicente Fernando Saraiva da Fonseca.
Por aí fora todas as aldeias tinhas a sua alcunha. Eram epítetos usados pelos naturais de uma povoação quando eles queiram ofender ou melindrar os da outra. Em tempos remotos eram um autêntico pendão de identidade colectiva pendurado na ponta de um varapau.
Acompanhado do jovem castrense Manuel António Morgado Ribeiro, mês de Outubro de 2001, desloquei-me até ao sítio denominado Mochicos, terras do Custilhão, a cerca de três quilómetros desta povoação, na direcção nordeste, ali para os lados de Coira, Devesa e Ribeira
Por gentileza, a Câmara Municipal de Castro Verde fez-me chegar, muito recentemente, as edições que tem patrocinado. Li, com agrado, «O Termo de Castro Verde», vol. I, da autoria do Dr. João José Alves da Costa.
Depois de ter lido o livro intitulado «O Termo de Castro Verde» da autoria do meu amigo Dr. Alves da Costa, ao verificar que ele, referindo-se aos quadros existentes na Igreja dos Remédios se ficou pendurado em dúvidas, oscilando entre Diogo Magina e Diogo de Sousa, mestres pintores que os terão executado, fiquei perplexo perante esta sua atitude.
Entre essas transcrições dos muitos documentos que consultei nos arquivos de Castro Verde (Alentejo),enquanto ali fui professor na Escola Preparatória daquela vila, estão aquelas que se referem aos contratos de «arrematação» das pinturas dos quadros da Igreja da Sª dos Remédios.
No dia 12 de Novembro, aí pelas 20 horas, três pessoas amigas alertaram-me, via telefone, para o programa televisivo «A Alma da Gente» do professor José Hermano Saraiva.
Depois das considerações que teci, na crónica anterior, ao programa «A Alma e a Gente» do Professor Hermano Saraiva, que foi para o ar na «2» no dia 12 de Novembro de 2006, fazendo uso do motor de busca «Google» eis que na entrada «rtp.pt» vejo aquilo que o Professor disse sobre Castro Daire. Isso obriga-me a voltar ao assunto e, ficando-me pela «Carvalha do Presépio», eis as palavras do Professor:
No livro que estou a elaborar sobre a «História Política do Concelho» entrará um capítulo sobre o «Caciquismo», para o qual, seja nos tempos da Monarquia, seja nos da República, do Estado Novo e de Democracia existe, seguramente, matéria sobeja.
Nasceu em 1792 e, com 16 anos de idade, assentou praça como soldado. Com a divisa «Honra, Dignidade e Fidelidade ao Rei e à Pátria», subiu todos os degraus da hierarquia militar até General.
Aldeia de Cujó. Ano de 1955. No chão, ma tampa de chapa solta. Um rapaz de 16 anos de idade. Uma ideia. O caco de uma telha. Um desenho feito na chapa. Uma safra. Um martelo de bola. Uma talhadeira afiada e temperada na «Tenda dos Ramalhos», onde se fazem, também, enxadas, trilhos para carros de bois, sovinas, cavilhas, pregos, cravos, brochas de cabeça piramidal, ferraduras para asininos, equinos e outras bestas, testeiras e chapas para tamancos
Irra! Mal entrei de férias e logo uma menina/senhora, de seu nome Fátima Silva, decidiu tirar-me do remanso, disposta, ao que parece, a fazer-me a cama. Não deixo. Rural assumido, conhecedor do relevo e vegetação locais, deito mão as umas farripas de feno, a algumas de fieitos mais, e já está. Atiro-me para cima dela e, inebriado pelos odores do campo, gozo os prazeres da vida e logo durmo que nem um santo.
Com um pouco de jeito e boa vontade sempre disponibilizo um nadinha do meu tempo para atender uma jovem de 22 anos, com sangue na guelra, que insiste em falar do que não entende, nem parece que tenha vontade de entender. E esclarecendo ela não quer «fazer-me a cama», parece apostada em «tratar-me da saúde». Também não deixo.
Até nisso exijo competência. Nada de curandeiros/curandeiras que, alérgicos a saberes e títulos académicos, fazem incursões em áreas desconhecidas e, irresponsavelmente, se põem a receitar mesinhas como se fosse diplomados.
Longe vai o tempo em que no meu livro «Cujó – Uma Terra de Riba-Paiva» e, mais recentemente, no meu livro «Mosteiro da Ermida» dissertei sobre o «Verbo dos Pedreiros de Cujó», ‘código linguístico’ usado entre esses profissionais da pedra. De facto, nesses meus dois livros, aludindo à forma verbal dos pedreiros se comunicarem entre si, especifiquei:
Menino ainda, não tinha desculpa possível para me recusar a ir onde quer que fosse mandado, alegando desconhecer o sítio: «quem tem boca, vai a Roma», «todos os caminhos vão dar a Roma» eram as frases que sucediam à minha hesitação e confirmavam, depois, o sucesso do recado cumprido.
Mas, se cedo aprendi o significado de tão «sábias» expressões, tarde soube que elas eram o fruto de muitos séculos do Império Romano, onde se incluía o território que viria a ser Portugal.
Decorria o ano de 1878 quando, gente grada de Castro Daire, senhores de gravata e colarinho espetado, prevenindo a salvaguarda de teres e haveres, individuais e colectivos, resolveram criar um Corpo de Bombeiros.
Nem sempre o historiador, interessado em avivar a memória dos povos e das instituições, encontra os documentos que fundamentam a História de cada uma delas. Mas, no que respeita aos Bombeiros e à sua Banda, não fui tão desafortunado assim.
Nesta minha trabalhosa sina de indagar, com objectividade, quais os nossos conterrâneos que, residentes ou migrados, fizeram, em vida, algo «por, para, em e pró» Castro Daire, de modo a que o seu nome e as suas obras não sejam omitidos nas páginas da História concelhia, eis, entre eles, um protagonista que, não obstante, ter feito o que fez em prol das gentes de Castro Daire e da Associação Humanitária dos Bombeiros, não mereceu, até hoje, nome de Avenida, Rua, Beco ou Quelho.
Nesta minha senda de, pelos trilhos da investigação, encontrar protagonistas naturais do concelho, residentes ou migrados, que, fazendo pela sua vida em longes terras ou terras próximas, nunca esqueceram o seu torrão natal e, preocupados com o seu progresso e desenvolvimento, dispuseram de tempo e de haveres, em prol das suas gentes, eis, à semelhança dos conterrâneos, Manuel Ferreira de Almeida e Manuel Duarte Ribeiro, referidos no artigo anterior, mais dois cidadãos que deixaram a sua marca em Castro Daire. Trata-se de dois membros da família Serrado.
Quatrocentos anos após o português Leonel de Sousa ter firmado com os chineses o primeiro trato comercial visando a fixação de gente lusa na península de Kwangtung a troco de 10% dos direitos comerciais, eis que a História dá a volta. Neste princípio do século XXI os chineses descobrem a Europa, Portugal inteiro e, nos fins do mês de Julho de 2003, chegam também a Castro Daire.
Em duas segundas-feiras de cada mês, pode dizer-se que a sede do concelho de Castro Daire se transforma num íman que atrai todos os produtores e produtos ligados às actividades económicas das redondezas. Aqui desaguam lavradores e artesãos na mira de venderem a produção dos seus misteres e de comprarem o que aos seus misteres faz falta. É a feira quinzenal de Castro Daire em tempos idos.
Jorge Cardoso, no seu “Agiologio Lusitano”, Tomo III (edição de 1666) faz eco de uma tradição existente na vila de Castro Daire, segundo a qual o rei D. Dinis teria consentido que as pedras do castelo fossem utilizadas na construção da igreja.
Retomando a pesquisa sobre a existência ou não de um castelo em Castro Daire, peguemos agora nas deambulações, notícias e efabulações que acerca de tal assunto fez Aires Pinto Marcelino no jornal “O Castrense”, já citado.
Regressando a alguns números atrás deste jornal voltemos ao Inquérito mandado fazer por D. José I aos responsáveis por todas as Paróquias do Reino e às respostas dadas pelo Reverendo de Castro Daire.
Neste título encontra informações que remontam às origens do concelho e vão até à Revolução Liberal de 1820. O termo abarca assim tempos em que a Coroa e Altar unidos governavam o Reino e moldavam a mentalidde e o comportamento dos súbditos através de leis, provisões e pastorais.
Aqui se registam algumas consequências da Revolução Liberal de 1820 no concelho de Castro Daire e se identificam alguns protagonistas afectos aos partidos políticos oponentes. Saber-se-a que os exaltados ânimos da Guerra Civil conduzirão ao assassinato do Padre Bizarro afecto à causa liberal e à morte do capitão dos Voluntários Miguelistas de Castro Daire que tomou parte no cerco do Porto.
Aqui se diz quando, como e por que meios os castrenses tiveram conhecimento da Revolução de 5 de Outrubro de 1910. Aqui se sublinha o protagonismo assumido por alguns monárquicos e republicanos face aos imperativos do momento e ao posterior evoluir dos acontecimentos.
Depois de quase meio século de Ditadura, a Revolução de 25 de Abril instaurou a Democracia. Os órgãos do Poder Local passaram a ser eleitos pelos munícipes e o concelho acorda da letargia em que mergulhava.
Alegando constar em «memórias antigas», Nicolau de Santa Maria, cronista de Santa Cruz de Coimbra, atribui a fundação do Mosteiro da Ermida aos monges premonstratenses, que, depois de terem ajudado D. Afonso Henriques a conquistar Lisboa, em 1147, se terão deslocado para as faldas do Montemuro.
As siglas têm sido consideradas as assinaturas dos canteiros, visto estes trabalharem à peça e, assim, evitarem que camaradas de ofício facturassem trabalho alheio. (...)
Nas inquirições de D. Afonso III, com data de 1258, lê-se que Mauro Pelágio jurou que "(...) Linares et Faregia et Baltar et Faregias, Felgosa, Felgosia, Moastium, Os Braços, Covelias et Lamelas et Barrial de Homicio tote iste aldeole sunt de Castro et de suo termino"(1)
Em 1593, o abade de Castro Daire, Francisco Rodrigues, dotou a capela de Santo António da vila com foros e bens de raiz que deviam ser administrados pelo seu sobrinho e sucessor Pe. Domingos Rodrigues, com ónus de ali celebrarem missas semanais pela sua alma.
Quando a luta pela sobrevivência leva a terra, os homens e os animais a formarem um trio inseparável; quando as povoações da serra dependem quase exclusivamente da agricultura e da pecuária, é muitas vezes no tribunal que se dirimem os litígios levantados entre indivíduos ou pessoas colectivas.
Como da Odisseia de Homero o gigante Polifemo deixou a ilha dos Ciclopes e, com um só olho no meio da testa, três braços a saírem-lhe da cabeça e uma só perna descomunal, subiu às serras de todo o mundo civilizado a fim de ajudar o homem actual a vencer a batalha das energias na sua odisseia civilizacional.
Eis as últimas batalhas de um General que, depois de ter o peito cheio de medalhas pelos bons serviços prestados à Raínha e ao Reino acabou a sua carreira militar acusado de nepotismo e coisas mais.
«Hoje o relativismo tornou os historiadores mais modestos. Donde falam eles? Do alto da «Ciência»? Quem ousará dizê-lo? Porque se a História é científica, essa Ciência, enquanto tal, é totalmente problemática». (NORA, Pierre, «O Acontecimento e o Historiador do Presente» in «A Nova História», de Jacques Le Goff, et alli, Edições 70,1978.
Não esperei muito para encontrar mais um artífice, de escopro na mão, a dar o seu contributo à imagem que se vinha cinzelando no sentido de enriquecer O LIVRO nacional de «heróis e santos».
No dia 8 de Outubro deste ano, pessoa amiga, sabendo-me envolvido na investigação, estudo e divulgação da História, fez-me chegar à mão o jornal «Poetas & Trovadores», nº 49 de Abril/Junho de 2009, saído do Apartado 108, 4801-910 Guimarães, cujo director é Barroso da Fonte.
O jornal «O Castrense», de 21 de Maio de 1911, numa crónica assinada por B. Morgado, dá-nos um cheirinho de como se processavam as eleições, em tempos da monarquia. Assim:
Para que o leitor não seja induzido em erro e pensar que o Palacete Pinto Basto, (mais conhecido por Palacete das Carrancas) pertencia, historicamente a essa família, impõe-se abrir aqui um parêntese para esclarecer o assunto.
A implantação da República não se ficou por Lisboa. Neste Portugal inteiro teve gente pró e contra. O Padre António Teixeira Marcelino, abade de Ribolhos, esteve contra. Bateu-se publicamente, e por escrito, pelas suas ideias. Mas vamos ver o que ele pensa dos republicanos e dos seus camaradas monárquicos, em 1925, já longe da refrega inicial, num artigo publicado no jornal «O Castrense».
Esta aldeia remonta aos primórdios da nacionalidade portuguesa, pois mais de uma dúzia de testemunhas desta terra depuseram nas Inquirições de D. Afonso III, em 1258, acerca dos descaminhos dos foros do rei do tempo e antes dele. Remetemo-nos para o texto e vejamos os termos da Inquirição:
A designação de «Quatro Esquinas» atribuída ao canto sul do actual «Jardim Público» da vila de Castro Daire, ali onde, em dias de feira (e não só) é o local de encontro das pessoas que procuram ver os amigos, discutir assuntos comezinhos, ou importantes de política nacional ou local, essa designação, dizia eu, é a prova cabal do papel que a memória desempenha na História do Homem e das comunidades.
Passados 15 anos depois de tanto alarido sobre as gravuras do Côa, aí temos prontinho, inaugurado, hoje, dia 30 de Julho de 2010, o «Museu de Arte e Arqueologia do Vale do Côa».